Não se sinta culpado, você ainda nem sabia o que isso significava, mas a primeira vez que se sentiu rejeitado na vida foi quando saiu do útero da sua mãe. Você estava lá, quentinho, no escurinho, todo aconchegante. Parecia que ia viver pra sempre assim, e, de repente, pá - deu de cara com a luz do dia, umas 5 pessoas de branco rindo pra você em uma sala de hospital. Quem, em sã consciência, não iria chorar? Se você hesitou em não derrubar suas lágrimas, um daqueles caras sorridentes, começou a dar palmadas na sua bunda. Difícil seria rir depois de tudo isso.
Desde então é exatamente essa sensação de proteção e paz que você procura. Alguém que possa te fazer sentir assim, sem precisar ter um útero de dois metros onde você ainda caiba. Procura em cada uma das pessoas que cruzam o seu caminho, e quando atinge idade suficiente, passa a procurar no sexo oposto. Ou no mesmo.
A verdade é que conscientemente você quer ficar sozinho. Quer se poupar das dores de cabeça, satisfações, possíveis mentiras ou traições e todos os outros pontos negativos que um relacionamento amoroso possa te trazer. Não é que você não enxergue qualidades no amor - pelo contrário - qualidades são o que este nobre sentimento mais possui. Mas infelizmente elas não vem sozinhas, e a procura tem sido tão grande desde que viu a luz do dia - ou do hospital - que você está cansado.
Então você se esforça. Não está preparado pra ser o útero de outra pessoa e não acha justo que ela faça isso por você. Está feliz porque pintou as paredes do seu apartamento de uma cor que só você gosta, mantém a tampa da sua privada abaixada (ou levantanda se for homem), e só precisa pagar um ingresso de cinema ou teatro. Você é financeiramente independente, tem seu próprio carro e pode fazer xixi fora do vaso, se quiser.
Aí, chega o aniversário da sua mãe. A única pessoa capaz de te oferecer um útero aconchegante. Ela merece um puta presente - e desculpe por usar a palavra puta, mas, convenhamos, é dificil expressar grande intensidade sem palavrões. Você, o filhinho querido, vai até uma loja achando que com dinheiro na mão tudo será muito simples. Mas não é. Dentre 5 tipos de camiseta básica com decote V e 12 modelos de forninho elétrico, você percebe que só uma mulher é capaz de escolher algo pra outra mulher. Talvez o melhor presente que possa dar à sua progenitora é uma nora.
Ou então, você é mulher. Acabou de comprar seu carro e está feliz a beça. Encheu o porta-luvas de maquiagem, perfume e um kit higiene. Tem 2 pares de sapato no seu porta-malas pra você trocar durante o dia se sentir vontade e - o melhor - nenhum homem pra reclamar disso. Você compra um rádio pro seu carango e está orgulhosa porque tem certeza que escolheu bem. Vai até a loja instalá-lo, em posse do seu cartão de crédito e seu salto agulha mais indicado praquele momento tão especial. O vendedor te olha nos olhos e você sente que ele também está orgulhoso de você. Mas não, ele está se perguntando como você pretende ouvir música no seu carro com um rádio potente e nenhum auto-falante. Merda.
São exemplos bobos. Talvez você seja uma expert em carros ou o melhor comprador de presentes para mulheres, mas com certeza, tem alguma coisa que em algum ponto da vida, vai perceber que não sabe fazer sozinho. É claro que nada disso é motivo pra decidir se casar e jurar fidelidade eterna. Mas é um bom começo pra te ajudar a entender que fomos feitos para viver em pares e que inconscientemente é só isso que você vem buscando - uma companhia que te faça reviver a paz de ser dois.
Então, de novo - não se culpe. Não se culpe por errar, perdoar, ligar de madrugada, comprar uma roupa nova pra encontrar alguém ou passar a noite na varanda esperando o carro de alguém atravessar a avenida. Não se culpe porque deseja alguém que não poderia ou porque faz esforços sobre-humanos pra não esquecê-la quando isso é exatamente o que deveria fazer. Não se culpe por procurar no próximo o útero da sua mãe. Você avisou que não queria sair de lá e ninguém te ouviu.
Enfim, não se culpe. Porque é só quando a gente se dá conta do que está procurando que finalmente consegue encontrar.
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